A personagem-tipo
A personagem-tipo é aquela que ao longo da acção não evolui, pois não apresenta densidade psicológica alguma, é previsível e observa o comportamento típico de determinada classe social, por exemplo. É normalmente retratada com alguma ironia, sarcasmo até.
Nunca acreditei na definição de personagens-tipo. Pensava eu, na minha ingeniudade de puto solitário freak-que-até-fala-sozinho que tal coisa não tinha cabimento. Afinal, por mais plana que uma pessoa seja, nunca é totalmente previsível, pois não? Haverá sempre algo que a identifique, que a demarque. Ninguém é linear.
Do 1º ao 7º ano frequentei o Externato Marista de Lisboa (sim, Externato Maricas de Lisboa, conheço essa muito bem, so please don't!). Como qualquer aluno, vi-me subitamente rodeado de pessoas com as quais devia partilhar interesses, criar laços, fundar amizades. Eu devia, artificialmente unir-me aos meus colegas de turma. Eles aparentemente conseguiram. Eu não.
Eles eram tão homogéneos, pensava eu, tão iguais nas suas intrigas, facadas, beijos (só um, tá a ver?), discussões, amores e ódios. Mas, pensava eu, fascinado com a ideia de personagem-tipo, há qualquer coisa que os individualiza. O Trigueiros gosta mais de camisas Façonnable azuis, o Valério prefere verdes ou castanhas. A Ana Rita tinha um diablo vermelho, mas ninguém batia a Mercedes com o seu diablo multi-color. E o tamagochi laranja do Diogo? Dava-lhe um toque de originalidade delicioso. Até todos terem um. Mas aqui a Débora destacava-se:
Tinha dois!
Assim, eles mesmo parecendo uma pasta humana sem altos nem baixos, tinham pequenos detalhes que os tornavam pessoas únicas.
Eu estava apaixonado pela Joana Carmo. Toda a gente estava apaixonada pela Joana Carmo. Até eu, não é? Bem, eu achava que ela era uma gaja bonita e tal... Mas enfim, boy meets girl: como nenhuma me interessava, escolhi a que toda a gente escolhia.
A Joana era uma gaja como todas as outras: morena magra bonita harmoniosa maquilhada e precocemente sedutora bronzeada depois das férias no Brasil bronzeada depois de Megève ou Courchevel roupa da Bershka e oh lá Giríssima giríssima! Que apaixonante, deveras...
Nunca vi a Joana chorar. Nem quando perdia alguma coisa. Nem quando se estatelava no chão numa aula de Educação Física. Nem quando um rapaz a trocava por outra (os amores no 6º ano são arrasadores). Solidamente, a rapariga era um pilar de self-confidence, de pose.
Um dia chorou. Muito: alguém lhe tinha riscado o seu novo Swatch, e era um exclusivo para membros do Swatch Club. Era insubstituível. Choraste que nem uma doida, Joana. Baba e ranho! Os teus olhos perderam o brilho da felicidade e das garantias, ganharam o das lágrimas.
À distância destes anos, agora que não sei nada sobre o que és, onde vives, o que fazes... sei que és uma personagem-tipo.
Tu e todos os outros. Essas vossas pequenas individualidades, fúteis tentativas de marcar território, não são nada. Iguais uns aos outros, parecem servir como papel de cenário para a minha infância.
Juanito Banana

1 Comentários:
que engraçado!
sou joana carmo
e sou brasileira
me reconheci, me estranhei e ri bastante... assim, de ser Joana carmo e linda e morena e de chorar por dentro por coisas grandes e de chorar baba e ranho pelo que ninguém entende!
juanarealizo@hotmail.com
8:55 PM
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