Domingo, Abril 10, 2005

Gadget Nanny

A casa da minha avó costumava ser um templo lo-tech. Para além da luz eléctrica, havia telefones (muitos, que a casa é grande!) e televisões. E pronto. Passava lá uns excelentes dias de technology-detox.

Depois, tinha eu uns 8 anitos, apareceu o micro-ondas. Adiós, forno eléctrico lento e obsoleto. Tempo é dinheiro.

Lentamente, aquela casa foi aderindo à modernização. Um tijolo chamado Motorola Flare tocava, um purificador de água "supimpa" prometia vida eterna livre de metais pesados e afins... mas não havia choque. Foi lento, e a maquinaria foi assimilada lentamente.

Depois, o meu avô, um workaholic que apesar de reformado trabalha loucamente, sentiu que não lhe era possível continuar a atravessar a estrada para tirar fotocópias. Pouco tempo depois, aterrava em casa uma máquina multifunções: fotocopiadora, fax, telefone... um portento de modernidade.

Desta adição já não gostei. O escritório dele sempre cheirou a papel velho, amarelado pelo tempo, a velhos dossiers cheios de documentos enigmáticos. Agora cheirava a papel queimado pela fotocopiadora.

Entretanto, a minha avó fala com um Nokia 8000 e tal, um super topo de gama, que nem está à venda em Portugal, arranjado pela minha Tia Mité. Era estranho ouvir a minha avó a perguntar como é que se liam SMS's...

E de repente, a coisa bateu fundo. A minha avó estava sentada nos velhos sofás da sala, no seu lugar habitual. Os pés repousados num débil banquinho quase-milenar, as almofadas batidas por anos de uso. Tudo ok.

Sobre as suas pernas, um portátil.

Um rico portátil, deixem-me acrescentar.
- Avó, o que é isso?
- Gostas? Foi a tua tia que me ajudou a escolher. Quero mexer na internet e isso, e escrever textos, que o teu avô precisa.
- Mas avó... Internet? Acha que precisa disso? Nesta... err... época da sua vida?
- Bem, eu gostava de aprender. Ensinas-me?
- Claro. Mas como quer ligar-se à internet?
- Já estou! Vem cá ver! Quer dizer, não sei bem o que é isto, mas... é sem fios!
- SEM FIOS? UMA REDE WIRELESS? Foi a tia, não foi?
- Claro. Ela é que tratou de tudo. É suposto ser o melhor que há. Agora mostra-me lá como é que se vê os horários dos cinemas, que a tua tia diz que dá!

Escusado será dizer que nessa noite a velha cama que me serviu de ninho (os meus pés ficam pendurados do lado de fora) durante tantos anos já não cheirava ao mesmo. O quarto onde passei muita da minha infância... era agora invadido por contínuas ondas, radiações de progresso, desde o escritório do meu avô. Era quase como se as ouvisse...

Tzzz Tzzz Tzzz

Fim do passado.

Juanito Banana

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